quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O Palhaço

Abriram os panos da lona e uma multidão não parava de entrar. Hoje o espetáculo ia ter casa cheia, o boato pela cidade é que seria o maior espetáculo do planeta! Ninguém naquela pequena cidade iria querer perder o grande evento. Aquele era o público ideal para o circo, pessoas ingênuas que se encantam com qualquer tenda colorida e personagens maquiados. Tolas!

Após todos se sentarem, as luzes se focam no tablado. Um homem de voz imponente convida a todos a ficarem atentos para a hora mais emocionante de suas vidas: a hora do show.

Corações palpitando, olhos vidrados e uma mente cativa: era o que o Circo esperava da sua estúpida platéia. Finalmente, o palhaço entra em cena. Sorrisos, brincadeiras e palhaçadas. Ele é a diversão encarnada. Quem o olha dos palcos nem imagina quem é o palhaço fora das tendas. O palhaço fazia rir a todos, com suas brincadeiras estúpidas e e seu humor escrachado, em cenas trapalhadas fazia com que todos efusivamente soltassem longas gargalhadas, mal percebia a plateia que ele só estava imitando cenas idiotas e cotidianas daquela cidade, ele só queria humilhá-los.



Quem era o palhaço? Sua história começa ali mesmo, naquela minuscula cidade interiorana e tediosa, ele era um menino pobre, morava na rua e passava o dia inteiro prestando atenção em como vivia as pessoas naquela cidade, ele sabia exatamente quem era cada um dos moradores, em compensação ninguém o olhava, ninguém nem se quer compartilhava algo com ele, ele era mais um zé ninguém. Até o dia que o circo chegou na cidade...

Clap, clap, clap! Era o som das palmas a cada sessão finalizada. O menino estava curiosíssimo, encantado, ele queria ser notado assim como aqueles artistas maquiados. O destino fez questão de dar uma mãozinha e pra quem não era notado, no circo ele foi aceito! No fundo todos eram perdedores como aquele menino e compartilhavam de apenas um sentimento, e esse era a vingança!

Todos estavam ali para enganar, fazer truques e debochar das pessoas. O palhaço? Sua principal arma, com humilhante cenas e trapalhadas caricatas imitava cada pessoa que um dia não o notou. Ahhhh.... ESTUPÍDOS!!! Era ódio, ódio que tomava conta dele e que o tornava descontrolado em cada apresentação, fazendo ele sair de si e a cada show ousar mais e mais nas cenas!

A platéia? Ria descontroladamente, achavam que aquele olhar insano do palhaço fazia parte do show. Coitados! Era o olhar da loucura dos excluídos, dos raivosos e frustrados...era o olhar da falta de consideração, de atenção, era conhecimento do não amor! O palhaço era seu espalho, retrato bizarro da coletânea de erros daquela cidade. O show então chega ao fim, as pessoas ironicamente voltam para seus lares e suas estúpidas rotinas e o palhaço pode então se acalmar, sua vingança nunca estava completa, mas o prazer de ferí-los moralmente era satisfatório, aguardava o dia do seu espetáculo final, para neste então dar um fim a tudo, as rotinas estúpidas e seu show trágico.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Circo

Reeeeespeitável público, é com imenso prazer que convido a todos a imergir no universo surpreendente e surREAL do circo, onde o picadeiro se faz cenário de inúmeras histórias, que nos traz o que vai além do conhecido nariz vermelho e grandes sapatos.

“Hoje tem espetáculo?
Tem, sim sinhô

Lá vem o circo. Vem chegando imponente sobre as estreitas ruas da cidade. Uma incrível legião de palhaços, mágicos, animais selvagens e equilibristas que se encarregam de trazer a alegria para alguns e o espanto de muitos.
“Hoje tem goiabada?
Tem, sim sinhô

Lá vem chegando o povo da cidade. Olham tudo com bastante estranheza, mas lhes agrada a sensação de desbravar o desconhecido.


“É de noite, é de dia?
É, sim sinhô

O anseio desenfreado pelo lucro do mestre de cerimônias era tamanho que não havia limites em seus métodos de arrancar dinheiro das pessoas. Com ele, o respeito ao respeitável publico só ficava no discurso.

Hoje tem marmelada?
Tem, sim sinhô.

O circo em cena, e a cena persiste em dar espaço a seres transvestidos de artistas caricatos e doces, personagens que encenam em um universo lúdico o cotidiano real e cruel de histórias marcadas por situações opostas ao papel de entreter, fascinar e divertir.

"Mas há milhões desses seres
Que se disfarçam tão bem ...”
(Chico Buarque, Brejo da Cruz. 1984)

Dou as boas vindas, se acomodem em seus lugares e saiam sem tumultuar.