Entre o cair e o se manter em pé, Ana passava os dias na corda bamba.
Nasceu no circo, filha do pai mágico com a mãe trapezista. Uma mistura interessante, por sinal. Um adorava viver o incomum, o surreal, o transformador, já a mãe adorava o perigo, voar, se aventurar. De certo que já criavam a menina para desempenhar alguma função no picadeiro, afinal, havia ela de ser talentosa. Certamente herdaria alguma “arte” dos pais.
Ana cresceu cheia de intervenções de todas as partes no circo, era a pupila de todos, todos queriam algo dela e que no que ela fosse fazer surpreendesse multidões. Era tanta pressão que a menina ficava perdida, queria agradar a todos, mas não conseguia, ela não podia!
Foi num certo dia que ela, brincando, viu um muro alto e decidiu subir. Passou o dia atravessando o muro de uma ponta à outra - ela achava divertido ter que se equilibrar, afinal, ela passava o dia tendo que se equilibrar em uma linha tênue que poderia decidir seu futuro.
O desafio de permanecer de pé, a incerteza da queda e sensação iminente de adrenalina a motivaram a permanecer mais uma geração no picadeiro. A diversão de Ana virou ganha pão, a comparação irônica da profissão com o seu dia-a-dia virou filosofia de vida.
A pergunta a ser feita é: quem não é Ana todos os dias? Talvez não Ana de batismo, mas de artista. Quem não tem que se equilibrar todos os dias para conciliar os prazeres da vida com a chatice da rotina? Quem não luta para manter-se de pé na corda bamba das circunstâncias do dia-a-dia – e quem no fundo não morre de medo de cair dessa corda e se tornar uma frustração para o público que o assiste?
Ana só é mais uma lutadora dos nossos dias e o circo é só mais um espelho do que é a nossa vida. Desafios, ilusões e palhaçadas nos ocorrem todos os dias – já não ouviram dizer que a arte imita a vida? Imagino que a maior diferença entre a realidade e o circo seja a maquiagem. Portanto, se há algum grande espetáculo, este é o da vida. Viva a vida: o verdadeiro maior espetáculo da Terra.
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