segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
A Torre
Os dias eram intensos, como brincar com o tempo, parece que nada tinha hora, tudo estava fora do lugar, tudo ficava pior quando Ele não estava lá.
Tudo que ela podia ver além de sua solidão era através de uma pequena janela, onde se concentrava no silêncio da noite, onde a imaginação ganhava asas e ela podia se ver livre, desprendida de suas amarras, livre para viver, além da teoria...livre pra te encontrar.
“Tire essa venda dos olhos, não permita que te roubem a liberdade..” - Certo dia acordou e a pequena janela se encontrava fechada, o coração acelerou, ela foi até a janela tentou abrir, mas não consegui. Clara não conseguia ver a luz do dia, pouco a pouco as lágrimas tomaram conta de seus olho, escorriam pelo seu rosto, Clara sentia medo.
“O que brilhava, não brilha mais para mim...” - Em meio a escuridão ela delicadamente se deitou no chão, como se entregasse a aquele estado, foi então que viu no vão da esquecida porta um fiozinho de luz. O coração de Clara acelerou, ela foi chegando perto, a luz aumentava, foi então que clara tocou na porta e espiou por debaixo do vão entre ela, lá fora a claridade era tão intensa que não aguentou olhar por muito tempo, Clara sorrio.
Decidiu se levantar e rapidamente colocou as mãos sobre a maçaneta, por um instante hesitou na tentativa de abrir, aquilo que a mantinha presa. Virou delicadamente e para seu espanto ela se abriu,Clara não acreditava! - Como podia estar aberta? - Havia um homem aos pés da escada ela não o viu direito, mas ele a iluminava.
Clara nunca soube se a porta sempre estivera aberta, mas de uma coisa tinha certeza antes daquele dia sob a escuridão, ela nunca tivera a iniciativa de sair dali. Não sabemos ainda o que acontecerá com Clara, mas no momento sei que ela corre. Corre atrás da luz. Corra, Clara, corra.
“And though You're invisible, I'll trust the unseen[...]”
sábado, 4 de dezembro de 2010
Drama Queen
“Eu vivo a vida na ilusão, entre o chão e os ares, vou sonhando em outros ares, vou...”
Falta ar, ofegante entre uma lágrima e outra, a dor que sente a torna impotente, debilitada é consumida pelo seu sofrimento, suas energias se esgotam e lhe resta se encolher num cantinho qualquer e torcer para que o esquecimento tome conta de sua mente.
“É de imaginar bobagem
quando a gente liga na televisão
toda dor repousa na vontade
todo amor encontra sempre a solidão”
Sua cena, seu show, holofotes iluminam o perímetro onde se encontra, ou se esconde, como preferir. Ela não quer ser assim, ela não queria chorar, no fundo só queria dançar, dançar com leveza e delicadeza de anjos que 'descansam' sobre paz divina.
“todos os encontros todos os poemas
manda me avisar, todos os embates todos os dilemas, manda me avisar...”
Na TV não é mais a mesma, no rádio se muda o som, no diário se enxuga lágrimas, no coração se marca feridas.
“[...]manda me avisar eu sei, todo ser humano, pode ser um anjo.”
Como estampa da alma, ela renega seu jeito, num impasse cíbrido entre drama e razão, ela se espalha, cai no chão, se levanta, quer ajuda, mas não segura nenhuma mão, faz drama, mas no fundo só quer atenção, não escolheu ser assim, mas dominada deixa externar sua fraqueza, como fraca, quer ser da realeza, mas ter paz.
“A paz de estar em par com Deus, pode rir agora...”
domingo, 28 de novembro de 2010
Quanto vale a sua palavra?
Recorto trechos de um livro e lembro-me de queimá-lo depois de ler...
Lhe mostrou um livro, com figuras bonitas e um triste final, o fitou nos olhos e com lágrimas pediu:
“Só não quero este final, você está certo do que quer?”, ele sorriu como se estivesse emocionado com a história e respondeu: “Claro que estou certo, meu desejo é o 'para sempre'..”.
Ela não o fez jurar, não achava necessário, ele parecia confiável, parecia amá-la.
Vlap, vlap, vlap...folheio para encontrar o próximo trecho.
Ele vai dormir, mas antes disso a chama, com cuidado a olha atentamente, sorri e diz: Você é linda e eu a amo. Ela sorri e ele continua: Fica mais, fica aqui. E ela achando graça, responde: Quem sabe daqui a algum tempo é pra sempre. E ele sorri e diz feliz: É quem sabe!
Vlap – Apenas uma página foi virada, um dia, pra ser preciso algumas horas mais tarde pra que o rumo mudasse.
Fim, sim era o fim. A mudança, o desfazer, o retirar, ela não tinha mais valor algum. Ele amarrou cordas em sua mão e como um boneco de pano trouxe o corpo mole dela perto do dele, dançou, girou, dançou e pra finalizar a jogou na parede, cansou de encenar, perdeu a graça, cansou do brinquedo.
Ela o olhou assustada, não entendia, ele não poderia mentir pra ela, não fazia sentido algum brincar com alguém assim, mas ele jogou.
Quanto valia a palavra dele? Para ele tudo o que ele tinha, para ela TUDO o que ele NÃO tem.
Como boneca caída ela levanta, ele pede perdão a ela, mas do que valia o perdão? Ele não era ingênuo ou desavisado, sabia como evitá-lo, teve chances. Se abraçam, aquele ainda continua sendo um lugar aconchegante, ela não sabe, mas ainda parecia seguro, ela aceita.
Fecho o livro, pode queimar.
“Não compreendo os Teus caminhos
Mas Te darei a minha canção
Doces palavras Te darei
Me sustentas em minha dor
E isso me leva mais perto de Ti
Mais perto dos Teus caminhos
E ao redor de cada esquina, em cima de cada montanha
Eu não procuro por coroas, ou pelas águas das fontes.
(...)
Que a visão da Tua face
É tudo o que eu preciso, eu Te direi
Que vai valer a pena
Vai valer a pena
Vai valer a pena, mesmo”
Livres para Adorar
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
A equilibrista
Nasceu no circo, filha do pai mágico com a mãe trapezista. Uma mistura interessante, por sinal. Um adorava viver o incomum, o surreal, o transformador, já a mãe adorava o perigo, voar, se aventurar. De certo que já criavam a menina para desempenhar alguma função no picadeiro, afinal, havia ela de ser talentosa. Certamente herdaria alguma “arte” dos pais.
Ana cresceu cheia de intervenções de todas as partes no circo, era a pupila de todos, todos queriam algo dela e que no que ela fosse fazer surpreendesse multidões. Era tanta pressão que a menina ficava perdida, queria agradar a todos, mas não conseguia, ela não podia!
Foi num certo dia que ela, brincando, viu um muro alto e decidiu subir. Passou o dia atravessando o muro de uma ponta à outra - ela achava divertido ter que se equilibrar, afinal, ela passava o dia tendo que se equilibrar em uma linha tênue que poderia decidir seu futuro.
O desafio de permanecer de pé, a incerteza da queda e sensação iminente de adrenalina a motivaram a permanecer mais uma geração no picadeiro. A diversão de Ana virou ganha pão, a comparação irônica da profissão com o seu dia-a-dia virou filosofia de vida.
A pergunta a ser feita é: quem não é Ana todos os dias? Talvez não Ana de batismo, mas de artista. Quem não tem que se equilibrar todos os dias para conciliar os prazeres da vida com a chatice da rotina? Quem não luta para manter-se de pé na corda bamba das circunstâncias do dia-a-dia – e quem no fundo não morre de medo de cair dessa corda e se tornar uma frustração para o público que o assiste?
Ana só é mais uma lutadora dos nossos dias e o circo é só mais um espelho do que é a nossa vida. Desafios, ilusões e palhaçadas nos ocorrem todos os dias – já não ouviram dizer que a arte imita a vida? Imagino que a maior diferença entre a realidade e o circo seja a maquiagem. Portanto, se há algum grande espetáculo, este é o da vida. Viva a vida: o verdadeiro maior espetáculo da Terra.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
O leão
A partir daí passou a receber todos os dias a visita de um homem com o olhar fundo e sem expressão alguma que o obrigava todos os dias a fazer coisas sem sentido e desconfortáveis para o pobre leão.
O leão sofria sem poder reagir, ao tratamento nas chicotadas e choques – tratamento este que o despia de qualquer força que pudesse aparecer. Doía, ah como doía, tinha seu coração e seu futuro moídos. Neste momento ele se sentia como um objeto, sem valor, uma marionete, humilhado e passa de rei dos animais para um bichinho de estimação maltratado e manipulado.
Chega o dia de sua primeira apresentação, casa cheia, muitos vieram de longe para assistir a mais nova aquisição do circo. O leão? Este sentia que algo grandioso o aguardava. Seria trágico? Seria transformador?
As luzes no picadeiro focavam a jaula. O leão por um momento não conseguia enxergar absolutamente nada. O homem sem expressão impiedosamente o chicoteava. Cego, a única coisa que o leão podia fazer era rugir e lembrar automaticamente dos passo e truques sem sentido que aprendera. Palmas frenéticas viam da platéia. O homem se gabava de domesticar leões. Tolo!
O segredo do sucesso do homem não era domesticar leões, era os cegar e manipular impiedosamente. Cegar ao ponto de fazer o leão não enxergar nada além da lembrança dos dias sofridos passados, porém naquele minuto o domador para, agradece os aplausos, enquanto isso o leão começa a enxergar a platéia, cada rosto de criança que sorriam e o olhavam com tanto afeto...Ahh! Que cena... Naquele instante ele pareceu recuperar suas forças e imponência de rei, como era bom se sentir amado!
Acabou o show, voltou pra jaula e mesmo dolorido, cansado, estava satisfeito, sabia que o futuro não seria aquele que desejara, mas mesmo cheio de aflições ele receberia a cada apresentação sorrisos compensadores e um amor de ultrapassar barreiras.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
O ilusionista
Um ser encantador por natureza e arrebatador por condição.
Era uma noite diferente para ela, uma noite da qual nunca se esqueceria. Ela se arrumou e foi a caminho do Circo, tinha uma incrível curiosidade sobre como poderia ser, já que quando criança nunca tinha ido a um espetáculo. Mal sabia ela que nesta noite ela faria parte do truque...
Foi lá que ela o conheceu.
Após tantas apresentações, ele foi anunciado, neste momento um silêncio arrasador paira sobre a tenda, ele entra com passos elegantes e um sorriso de arrebatar corações. Começa com truques simples, rápidos e pouco gestuais, mas foi então que decide fazer algo grandioso, olha para platéia e seu olhar encontra o dela, ele achou a vítima perfeita para aquela noite.
Ele a chama no palco, com carinho beija a sua mão e sorri passando uma falsa segurança. Ela se entrega totalmente a aquele momento. A luz agora foca os dois no tablado e ele começa a fazer truques que a pobre garota beira a acreditar serem de fato adventos de uma força sobrenatural. Ele mexe as mãos, transforma lenços em pombas, multiplica moedas, ele impressiona a platéia - e ela se apaixona por tudo aquilo.
É chegado o grand finale, o coração dela passa a bater mais rápido, suas mãos começam a suar e suas pernas ficam bambas. Qual o próximo truque? Sumir! Ele pede ajuda para ela, sabe que para garantir o sucesso do show nada pode dar errado agora. Ele entra na caixa, pede a ela suba um pano laminado em volta, espere alguns minutos e abra a caixa, sem falar absolutamente nada, ela concorda, mas seu coração está apertado, como é ruim vê-lo partir. Tudo sai como planejado, ela aguarda alguns minutos solta o pano e abre a caixa, e claro, ele não esta lá. A platéia efusivamente aplaude, grita, se emociona, foi um show incrível!
O espetáculo acabou, as palmas cessam e as luzes se apagam. Ela ainda está lá, em pé, encantada com o bendito ilusionista. Ela o procura fora da tenda, ele esta de pé perto de um trailler, ele nem a nota. Ela se aproxima e bate os seus delicados dedos nas costas do rapaz. Ele a comprimenta sem mesmo a reconhecer, ela ainda arrisca: “Fui a sua assistente no espetáculo de hoje, se lembra?”. Ele nem se esforça em recordar e diz: “Faço três espetáculos por dia, não consigo lembrar de todas.”.
A cena é desesperadora demais para ela. E o beijo na mão? E o sorriso? E as mágicas? Perguntas que pertubavam a cabeça da pobre garota desiludida. Era difícil acreditar, mas a magia que o ilusionista tinha no palco eram meros truques baratos. Tudo ensaiado, tudo maquiavelicamente planejado. Não havia mistério, sentimento ou encantamento. A garota se virou e seguiu seu caminho aprendendo uma nova palavra: ilusão. Uma palavra curiosa que se aprende mais com o coração do que com o próprio dicionário.